**Bloqueio de Contas por “Algoritmo de Risco”:

Views: 4

como reaver o acesso e pedir lucros cessantes quando a IA do banco trava o dinheiro de empresas sem aviso**

Introdução

Nos últimos anos, bancos passaram a substituir análises humanas por algoritmos de risco baseados em inteligência artificial para prevenir fraudes, lavagem de dinheiro e financiamento ilícito.
O problema é que, cada vez mais, empresas têm suas contas bloqueadas automaticamente, sem aviso prévio, sem explicação clara e, muitas vezes, sem qualquer irregularidade comprovada.

O resultado é devastador:
➡️ folha de pagamento não paga
➡️ fornecedores bloqueados
➡️ contratos rompidos
➡️ reputação empresarial abalada
➡️ prejuízo financeiro imediato

Este artigo analisa o que está por trás do chamado “algoritmo de risco”, quando o bloqueio é ilegal, como reaver o acesso aos valores, e quando cabe indenização e lucros cessantes, especialmente no contexto empresarial.


1. O que é o “Algoritmo de Risco” usado pelos bancos

Os bancos utilizam sistemas automatizados de monitoramento com base em:

  • Machine Learning
  • Análise comportamental de transações
  • Cruzamento de dados (origem, destino, volume, frequência)
  • Regras de compliance (PLD/FT – prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo)

Esses sistemas são alimentados por parâmetros internos e diretrizes regulatórias, como:

  • Lei nº 9.613/1998 (Lavagem de Dinheiro)
  • Normas do Banco Central (Bacen)
  • Recomendações do COAF
  • Políticas internas de risco

⚠️ O problema: o algoritmo não distingue contexto empresarial legítimo de risco real, e opera com base em probabilidade, não em certeza.


2. Bloqueio automático de contas: o que os bancos fazem na prática

Na prática, o banco:

  • Bloqueia total ou parcialmente a conta
  • Impede transferências, PIX, TED e pagamentos
  • Retém valores já depositados
  • Não informa claramente o motivo
  • Exige documentos genéricos ou indefinidos
  • Mantém o bloqueio por semanas ou meses

Tudo isso sem decisão judicial.

Para empresas, isso equivale a paralisar a atividade econômica, o que é juridicamente grave.


3. O banco pode bloquear conta empresarial sem aviso?

Resposta curta: NÃO, salvo situações extremamente excepcionais

O entendimento predominante na jurisprudência brasileira é que:

✔️ o banco pode monitorar operações
❌ o banco não pode reter valores indefinidamente
❌ o banco não pode bloquear conta sem justificativa clara
❌ o banco não pode substituir o Judiciário

Mesmo em casos de suspeita, o banco deve:

  • Comunicar o cliente
  • Permitir contraditório e esclarecimentos
  • Adotar medidas proporcionais
  • Liberar valores essenciais à atividade

Bloqueios automáticos e prolongados violam princípios básicos do direito empresarial e do consumidor.


4. Fundamentos jurídicos contra o bloqueio por IA

4.1 Código de Defesa do Consumidor (CDC)

Mesmo empresas podem ser consideradas consumidoras quando:

  • Não têm poder de negociação
  • Utilizam serviços bancários padronizados
  • Estão em posição de vulnerabilidade técnica

O bloqueio arbitrário configura:

  • Falha na prestação do serviço
  • Abuso de direito
  • Desequilíbrio contratual

4.2 Código Civil

O banco responde quando:

  • Age com excesso
  • Causa dano previsível
  • Viola a boa-fé objetiva

A retenção injustificada de valores gera dever de indenizar.


4.3 Constituição Federal

O bloqueio atinge diretamente:

Nenhum algoritmo pode se sobrepor a esses princípios.


4.4 LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados

A LGPD é um ponto-chave nesses casos.

Ela estabelece que:

  • Decisões automatizadas devem ser explicáveis
  • O titular tem direito à revisão humana
  • O tratamento deve ser proporcional e transparente

👉 Bloqueio por “caixa-preta algorítmica” é juridicamente questionável.


5. Quando o bloqueio é ilegal

O bloqueio se torna ilegal quando:

  • Não há ordem judicial
  • Não há prazo definido
  • Não há explicação objetiva
  • Não há prova concreta de irregularidade
  • O banco ignora documentos apresentados
  • A empresa sofre prejuízo operacional

Nesses casos, a responsabilidade do banco é clara.


6. Como reaver o acesso à conta e aos valores

6.1 Medidas administrativas iniciais

Antes da via judicial, recomenda-se:

  • Protocolo formal no banco
  • Envio de documentação contábil
  • Solicitação expressa de desbloqueio
  • Registro no SAC e Ouvidoria

Essas etapas documentam o abuso, o que fortalece a ação judicial.


6.2 Ação judicial com pedido de tutela de urgência

Quando o bloqueio persiste, o caminho é o Judiciário.

Pedidos comuns:

  • Liberação imediata dos valores
  • Desbloqueio da conta
  • Multa diária por descumprimento

A Justiça costuma reconhecer que empresa não pode ser asfixiada financeiramente por suspeita genérica.


7. Lucros cessantes: quando o banco deve indenizar

7.1 O que são lucros cessantes

Lucros cessantes são ganhos que a empresa deixou de obter em razão do bloqueio.

Exemplos:

  • Contratos cancelados
  • Vendas não realizadas
  • Serviços não prestados
  • Multas contratuais pagas a terceiros

Se o bloqueio foi indevido, o banco responde pelos prejuízos diretos e indiretos.


7.2 Como provar os lucros cessantes

Provas comuns:

  • Faturamento médio anterior
  • Contratos ativos
  • Extratos bancários
  • Notas fiscais
  • Demonstrativos contábeis

Quanto mais organizada a empresa, maior a chance de indenização relevante.


8. Dano moral empresarial também é possível?

Sim.

A jurisprudência admite dano moral para pessoa jurídica, quando há:

  • Abalo de reputação
  • Perda de credibilidade
  • Exposição negativa perante fornecedores e clientes

Bloquear uma conta sem justificativa atinge diretamente a imagem da empresa no mercado.


9. O papel perigoso da IA sem controle jurídico

A grande questão moderna não é a tecnologia, mas quem responde por ela.

  • Algoritmo não responde judicialmente
  • Banco responde
  • Terceirizados não afastam responsabilidade

A inteligência artificial não pode operar sem limites jurídicos, especialmente quando afeta direitos fundamentais e a sobrevivência de empresas.


10. Tendência da jurisprudência e do mercado

O Judiciário brasileiro caminha para:

  • Exigir maior transparência algorítmica
  • Rechaçar bloqueios automáticos prolongados
  • Responsabilizar bancos por danos econômicos
  • Aplicar LGPD de forma mais rigorosa

Empresas estão deixando de aceitar o discurso genérico de “política interna de risco”.


Conclusão

O bloqueio de contas por “algoritmo de risco” não é um poder absoluto dos bancos.
Quando a inteligência artificial passa a decidir, sem explicação e sem contraditório, quem pode ou não usar o próprio dinheiro, o direito precisa intervir.

Empresas não podem ser sacrificadas em nome de estatísticas automatizadas.

Quando o bloqueio é abusivo, o caminho é claro:

✔️ desbloqueio judicial
✔️ indenização por danos
✔️ reparação por lucros cessantes
✔️ responsabilização do banco

A tecnologia deve servir ao sistema financeiro, não sufocar a atividade econômica legítima.

Autor

  • Dr Roberto V. Villela Nunes

    Dr. Roberto V. Villela Nunes é advogado com mais de 30 anos de experiência, atuando nas áreas Cível, Trabalhista, Previdenciária. Ex-professor universitário de Prática Jurídica, especialista em diversas áreas do Direito e idealizador do OpinionJus.

Facebook Comments

Deixe um comentário